Como dimensionar uma vala de infiltração pela NBR 17076
A taxa pelo ensaio de percolação (Tabela N.1), a alternância, a seção, a infiltração por metro e o comprimento de cada vala, com um exemplo resolvido.
A vala de infiltração é o destino final do esgoto que já passou pelo tanque séptico e pelo filtro: uma vala rasa, com brita e um tubo furado, que devolve o efluente ao solo. Dimensionar é achar o comprimento de cada vala para o solo absorver tudo o que chega por dia. São cinco passos.
O que a vala faz
O efluente corre dentro de um tubo de distribuição deitado sobre a brita e sai pelos furos. A brita espalha; o solo absorve. Só conta como superfície de infiltração o que fica abaixo do tubo: o fundo da vala e as duas laterais até a altura dele. Quanto pior o solo infiltra, mais metros de vala são precisos. E a vala nunca anda sozinha: são pelo menos duas, usadas em revezamento, para o solo de uma descansar enquanto a outra trabalha.
A fórmula do comprimento
- L — o comprimento de cada vala, em metros.
- Q — a contribuição diária de esgoto que chega às valas, em litros por dia (Tabela 1).
- taxa — a taxa máxima de aplicação diária: quantos litros cada metro quadrado de solo absorve por dia, em L/m²·dia (Tabela N.1, pelo ensaio de percolação).
- Q / taxa — a área de infiltração total, em m².
- p — a parcela dessa área que cada vala tem de ter: 100 % com duas valas, 50 % com três ou mais (alternância).
- P — a infiltração por metro de vala, em m² por metro: o fundo mais as duas laterais abaixo do tubo. Depende da seção.
Passo 1 · A contribuição diária Q (Tabela 1)
Ache a ocupação do prédio na Tabela 1 e anote C, a contribuição por pessoa. Multiplique pelo número de pessoas: é o que chega às valas por dia. Se mais de um grupo manda esgoto para as mesmas valas, some os grupos.
| Ocupação | Unidade | C (L/dia) |
|---|---|---|
| Residência padrão alto | pessoa | 160 |
| Residência padrão médio | pessoa | 130 |
| Residência padrão baixo | pessoa | 100 |
| Hotel (exceto banheira, lavanderia e cozinha) | pessoa | 100 |
| Hotel com cozinha e lavanderia, exceto banheira | pessoa | 240 |
| Hotel com cozinha, lavanderia e banheira | pessoa | 360 |
| Alojamento provisório | pessoa | 80 |
| Orfanato, asilo | pessoa | 120 |
| Escola (internato) | pessoa | 150 |
| Presídio | pessoa | 240 |
| Quartel | pessoa | 120 |
| Área rural | pessoa | 100 |
| Fábrica em geral | pessoa | 70 |
| Escritório | pessoa | 50 |
| Edifício público ou comercial | pessoa | 50 |
| Escola de meio período | pessoa | 50 |
| Escola de período integral | pessoa | 100 |
| Creche | pessoa | 50 |
| Bar | pessoa | 6 |
| Restaurante e similares | refeição | 25 |
| Cinema, teatro, templo, igreja e locais de curta permanência | lugar | 2 |
| Ambulatório | pessoa | 25 |
| Estação ferroviária, rodoviária e metroviária | passageiro | 25 |
| Sanitário público | bacia sanitária | 480 |
Passo 2 · A taxa de infiltração (Tabela N.1)
A taxa diz quanto o solo do terreno absorve. Ela sai do ensaio de percolação (anexo N): cava-se um furo, enche-se de água e mede-se quanto tempo o nível leva para baixar. O resultado é o tempo de percolação K, em minutos por metro de queda do nível (a média das cavas). A Tabela N.1 converte K na taxa máxima de aplicação diária.
| Tempo de percolação K (min/m) | Taxa máxima (L/m²·dia) | Na norma (m³/m²·dia) |
|---|---|---|
| 40 ou menos | 200 | 0,200 |
| 80 | 140 | 0,140 |
| 120 | 120 | 0,120 |
| 160 | 100 | 0,100 |
| 200 | 90 | 0,090 |
| 400 | 65 | 0,065 |
| 600 | 53 | 0,053 |
| 1 200 | 37 | 0,037 |
| 1 400 | 32 | 0,032 |
| 2 400 | 24 | 0,024 |
Entre duas linhas, a taxa é a reta que liga os dois pontos. K = 1 000 min/m, por exemplo, está entre 600 (53) e 1 200 (37): taxa = 53 + (1 000 − 600) / (1 200 − 600) × (37 − 53) = 53 − 10,7 = 42,3 L/m²·dia. Acima de 2 400 min/m a tabela acaba: o solo quase não infiltra, e a vala não serve.
Sem ensaio, a norma aceita taxa de literatura específica (N.2). A referência clássica é o coeficiente de infiltração por tipo de solo (Jordão e Pessôa, 2005, Quadro 8; a tabela da antiga NBR 7229/1982). Serve para estimar; o ensaio é o que a norma pede.
| Faixa | Solo | Coeficiente (L/m²·dia) |
|---|---|---|
| 1 | Rochas, argilas compactas de cor branca, cinza ou preta, variando a rochas alteradas e argilas medianamente compactas de cor avermelhada | menos de 20 |
| 2 | Argila de cor amarela, vermelha ou marrom medianamente compacta, variando a argilas pouco siltosas e/ou arenosas | 20 a 40 |
| 3 | Argilas arenosas e/ou siltosas, variando a areia argilosa ou silte argiloso de cor amarela, vermelha ou marrom | 40 a 60 |
| 4 | Areia ou silte pouco argiloso, ou solo argiloso com húmus e turfas, variando a solos constituídos predominantemente de areias e siltes | 60 a 90 |
| 5 | Areia bem selecionada e limpa, variando a areia grossa e cascalho | acima de 90 |
Passo 3 · A área e a alternância
A área de infiltração total é a contribuição diária dividida pela taxa. Mas ela não se divide entre as valas: a norma manda usar as valas em revezamento (L.3.5), cada uma por no máximo seis meses. Então, com duas valas, cada uma tem 100 % da área (uma trabalha, a outra descansa); com três ou mais, cada uma tem 50 %.
| Valas | Parcela p de cada vala | Área de cada vala |
|---|---|---|
| 2 | 100 % | A |
| 3 ou mais | 50 % | A / 2 |
Passo 4 · A seção e a infiltração por metro
Agora escolha a seção da vala: a largura do fundo e a altura de brita abaixo do tubo. Cada metro de vala infiltra pelo fundo e pelas duas laterais até o tubo; o que fica acima do tubo não conta. Essa soma é a infiltração por metro, P, em m² por metro.
- Seção retangular (largura b, altura h abaixo do tubo): P = b + 2 · h.
- Seção trapezoidal (base menor b no fundo, base maior B no tubo, altura h): cada lateral é inclinada e avança (B − b) / 2 para fora. P = b + 2 · √(h² + ((B − b) / 2)²).
Passo 5 · O comprimento e as linhas de 30 m
O comprimento de cada vala é a área que ela precisa dividida pelo que cada metro infiltra. E cada vala tem no máximo 30 m (L.2 l): se der mais, a vala vira várias linhas paralelas, cada uma de até 30 m, com os eixos a pelo menos 2 m uma da outra (L.2 k). Divida pelo menor número de linhas que cabe em 30 m.
Detalhes que a norma exige
- Cada vala (ou linha) com no máximo 30 m de comprimento (L.2 l).
- Eixos de valas paralelas a pelo menos 2,00 m um do outro (L.2 k).
- Seção mínima de 0,30 m de largura e 0,30 m de brita abaixo do tubo de distribuição (Figura L.1).
- Pelo menos duas valas, em uso alternado: cada uma trabalha por no máximo seis meses (L.3.5).
- Fundo da vala a 1,50 m do nível máximo do aquífero (L.3.2).
- Tubo de distribuição de Ø 100 mm (Ø 50 mm em residência de até 5 pessoas), com furos de 10 mm e declividade de 1:300 a 1:500 por gravidade; brita nº 3 em volta; manta geotêxtil entre a brita e o solo; tubo de ventilação (anexo L).
- Em solo arenoso (K abaixo de 500 min/m), camada filtrante de solo em volta, sem compactar (K.3.2).
Erros comuns
- Uma vala só. A norma pede revezamento: no mínimo duas, cada uma com a área toda.
- Dividir a área entre as valas. Com duas valas, cada uma tem 100 % da área, não 50 %. A metade só vale com três ou mais.
- Pegar a linha mais próxima da Tabela N.1. Entre duas linhas a taxa é interpolada em reta. K = 1 000 min/m dá 42,3, não 37 nem 53.
- Contar a seção inteira. Só infiltra o que está abaixo do tubo: o fundo e as laterais até a altura dele. A brita de cima e o aterro não entram.
- Lateral trapezoidal com o avanço errado. Cada lado avança (B − b) / 2, metade da diferença das bases, e não B − b / 2.
- Vala de 40 m numa linha só. Acima de 30 m, divida em linhas paralelas, com os eixos a 2 m.
- Valas coladas uma na outra. Os eixos ficam a pelo menos 2 m, senão uma rouba o solo da outra.
Como o AquaFlow faz
Na janela da vala (tutorial Dimensionar as unidades), você escolhe a forma da seção, diz de onde vem a taxa (o K do ensaio, o tipo de solo ou a taxa direta), quantas valas e as medidas da seção. O app soma o que chega às valas, converte o K pela Tabela N.1 (interpolando em reta, e dizendo entre quais linhas), aplica a parcela da alternância, calcula a infiltração por metro e mostra a conta em blocos até o comprimento de cada vala, já dividido em linhas de até 30 m. Seção abaixo da Figura L.1, uma vala só, K fora da tabela ou solo arenoso: ele avisa no campo.
- 1Infiltração: Ensaio (o K em min/m), Tipo de solo ou Direta; ao lado, quantas Valas
- 2Retangular ou Trapezoidal
- 3Seção (m): Largura L e Altura h abaixo do tubo
- 4Por metro: a infiltração de cada metro de vala
- 5Comprimento de cada vala, em linhas de até 30 m
Referências
- ABNT NBR 17076:2024 — Sistemas de tratamento de esgoto de menor porte. Anexo L (vala de infiltração), anexo N (ensaio de percolação e Tabela N.1), K.3 e Tabela 1.
- ABNT NBR 13969:1997 (substituída) — Tanques sépticos: unidades de tratamento complementar e disposição final dos efluentes líquidos. A Tabela A.1, a mesma Tabela N.1.
- Jordão, E. P.; Pessôa, C. A. — Tratamento de esgotos domésticos (2005), Quadro 8: coeficiente de infiltração por tipo de solo.