Como dimensionar uma vala de infiltração pela NBR 17076

A taxa pelo ensaio de percolação (Tabela N.1), a alternância, a seção, a infiltração por metro e o comprimento de cada vala, com um exemplo resolvido.

Nesta página
  1. O que a vala faz
  2. A fórmula do comprimento
  3. 1 · A contribuição diária Q (Tabela 1)
  4. 2 · A taxa de infiltração (Tabela N.1)
  5. 3 · A área e a alternância
  6. 4 · A seção e a infiltração por metro
  7. 5 · O comprimento e as linhas de 30 m
  8. Detalhes que a norma exige
  9. Erros comuns
  10. Como o AquaFlow faz
  11. Referências

A vala de infiltração é o destino final do esgoto que já passou pelo tanque séptico e pelo filtro: uma vala rasa, com brita e um tubo furado, que devolve o efluente ao solo. Dimensionar é achar o comprimento de cada vala para o solo absorver tudo o que chega por dia. São cinco passos.

O que a vala faz

O efluente corre dentro de um tubo de distribuição deitado sobre a brita e sai pelos furos. A brita espalha; o solo absorve. Só conta como superfície de infiltração o que fica abaixo do tubo: o fundo da vala e as duas laterais até a altura dele. Quanto pior o solo infiltra, mais metros de vala são precisos. E a vala nunca anda sozinha: são pelo menos duas, usadas em revezamento, para o solo de uma descansar enquanto a outra trabalha.

As setas azuis são o que infiltra: só o fundo e as duas laterais abaixo do tubo (b e h, cada um de pelo menos 0,30 m); na trapezoidal a lateral é inclinada; na planta, cada vala tem até 30 m, os eixos ficam a 2 m e uma descansa enquanto a outra trabalha.

A fórmula do comprimento

L = (Q / taxa) · p / P
NBR 17076:2024, Anexo L. A área vem como no sumidouro (anexo K): a contribuição diária dividida pela taxa de aplicação. O resultado é em metros, por vala.
  • L — o comprimento de cada vala, em metros.
  • Q — a contribuição diária de esgoto que chega às valas, em litros por dia (Tabela 1).
  • taxa — a taxa máxima de aplicação diária: quantos litros cada metro quadrado de solo absorve por dia, em L/m²·dia (Tabela N.1, pelo ensaio de percolação).
  • Q / taxa — a área de infiltração total, em m².
  • p — a parcela dessa área que cada vala tem de ter: 100 % com duas valas, 50 % com três ou mais (alternância).
  • P — a infiltração por metro de vala, em m² por metro: o fundo mais as duas laterais abaixo do tubo. Depende da seção.

Passo 1 · A contribuição diária Q (Tabela 1)

Ache a ocupação do prédio na Tabela 1 e anote C, a contribuição por pessoa. Multiplique pelo número de pessoas: é o que chega às valas por dia. Se mais de um grupo manda esgoto para as mesmas valas, some os grupos.

Q = N · C (L/dia)
OcupaçãoUnidadeC (L/dia)
Residência padrão altopessoa160
Residência padrão médiopessoa130
Residência padrão baixopessoa100
Hotel (exceto banheira, lavanderia e cozinha)pessoa100
Hotel com cozinha e lavanderia, exceto banheirapessoa240
Hotel com cozinha, lavanderia e banheirapessoa360
Alojamento provisóriopessoa80
Orfanato, asilopessoa120
Escola (internato)pessoa150
Presídiopessoa240
Quartelpessoa120
Área ruralpessoa100
Fábrica em geralpessoa70
Escritóriopessoa50
Edifício público ou comercialpessoa50
Escola de meio períodopessoa50
Escola de período integralpessoa100
Crechepessoa50
Barpessoa6
Restaurante e similaresrefeição25
Cinema, teatro, templo, igreja e locais de curta permanêncialugar2
Ambulatóriopessoa25
Estação ferroviária, rodoviária e metroviáriapassageiro25
Sanitário públicobacia sanitária480
NBR 17076:2024, Tabela 1 — contribuição diária de esgoto (C). As 12 primeiras são ocupantes permanentes; as outras, temporários. A coluna do lodo fresco (Lf) só entra no tanque séptico. Conferida contra a norma em 05/10/2026.

Passo 2 · A taxa de infiltração (Tabela N.1)

A taxa diz quanto o solo do terreno absorve. Ela sai do ensaio de percolação (anexo N): cava-se um furo, enche-se de água e mede-se quanto tempo o nível leva para baixar. O resultado é o tempo de percolação K, em minutos por metro de queda do nível (a média das cavas). A Tabela N.1 converte K na taxa máxima de aplicação diária.

Tempo de percolação K (min/m)Taxa máxima (L/m²·dia)Na norma (m³/m²·dia)
40 ou menos2000,200
801400,140
1201200,120
1601000,100
200900,090
400650,065
600530,053
1 200370,037
1 400320,032
2 400240,024
NBR 17076:2024, Tabela N.1 — taxa máxima de aplicação diária pelo tempo de percolação (a mesma Tabela A.1 da antiga NBR 13969). A norma dá m³/m²·dia; aqui também em L/m²·dia (× 1 000). Conferida contra a norma em 09/10/2026.

Entre duas linhas, a taxa é a reta que liga os dois pontos. K = 1 000 min/m, por exemplo, está entre 600 (53) e 1 200 (37): taxa = 53 + (1 000 − 600) / (1 200 − 600) × (37 − 53) = 53 − 10,7 = 42,3 L/m²·dia. Acima de 2 400 min/m a tabela acaba: o solo quase não infiltra, e a vala não serve.

K abaixo de 500 min/m é solo arenoso (K.3.2): infiltra bem, mas pede camada filtrante de solo em volta e o fundo a mais de 1,50 m do aquífero.

Sem ensaio, a norma aceita taxa de literatura específica (N.2). A referência clássica é o coeficiente de infiltração por tipo de solo (Jordão e Pessôa, 2005, Quadro 8; a tabela da antiga NBR 7229/1982). Serve para estimar; o ensaio é o que a norma pede.

FaixaSoloCoeficiente (L/m²·dia)
1Rochas, argilas compactas de cor branca, cinza ou preta, variando a rochas alteradas e argilas medianamente compactas de cor avermelhadamenos de 20
2Argila de cor amarela, vermelha ou marrom medianamente compacta, variando a argilas pouco siltosas e/ou arenosas20 a 40
3Argilas arenosas e/ou siltosas, variando a areia argilosa ou silte argiloso de cor amarela, vermelha ou marrom40 a 60
4Areia ou silte pouco argiloso, ou solo argiloso com húmus e turfas, variando a solos constituídos predominantemente de areias e siltes60 a 90
5Areia bem selecionada e limpa, variando a areia grossa e cascalhoacima de 90
Jordão e Pessôa (2005), Quadro 8 — coeficiente de infiltração por tipo de solo. Literatura específica (N.2), não é tabela da NBR 17076. Na dúvida, use o menor valor da faixa.

Passo 3 · A área e a alternância

A área de infiltração total é a contribuição diária dividida pela taxa. Mas ela não se divide entre as valas: a norma manda usar as valas em revezamento (L.3.5), cada uma por no máximo seis meses. Então, com duas valas, cada uma tem 100 % da área (uma trabalha, a outra descansa); com três ou mais, cada uma tem 50 %.

A = Q / taxa (m²) · área de cada vala = A × p
ValasParcela p de cada valaÁrea de cada vala
2100 %A
3 ou mais50 %A / 2
Uso alternado (NBR 17076:2024, L.3.5), a mesma regra dos sumidouros (K.3.1.8). Uma vala só não atende.

Passo 4 · A seção e a infiltração por metro

Agora escolha a seção da vala: a largura do fundo e a altura de brita abaixo do tubo. Cada metro de vala infiltra pelo fundo e pelas duas laterais até o tubo; o que fica acima do tubo não conta. Essa soma é a infiltração por metro, P, em m² por metro.

  • Seção retangular (largura b, altura h abaixo do tubo): P = b + 2 · h.
  • Seção trapezoidal (base menor b no fundo, base maior B no tubo, altura h): cada lateral é inclinada e avança (B − b) / 2 para fora. P = b + 2 · √(h² + ((B − b) / 2)²).
A Figura L.1 da norma dá a seção mínima: 0,30 m de largura e 0,30 m de brita abaixo do tubo. Menos que isso não é vala.

Passo 5 · O comprimento e as linhas de 30 m

O comprimento de cada vala é a área que ela precisa dividida pelo que cada metro infiltra. E cada vala tem no máximo 30 m (L.2 l): se der mais, a vala vira várias linhas paralelas, cada uma de até 30 m, com os eixos a pelo menos 2 m uma da outra (L.2 k). Divida pelo menor número de linhas que cabe em 30 m.

L = (A × p) / P (m, por vala) · linhas = ⌈L / 30⌉

Detalhes que a norma exige

  • Cada vala (ou linha) com no máximo 30 m de comprimento (L.2 l).
  • Eixos de valas paralelas a pelo menos 2,00 m um do outro (L.2 k).
  • Seção mínima de 0,30 m de largura e 0,30 m de brita abaixo do tubo de distribuição (Figura L.1).
  • Pelo menos duas valas, em uso alternado: cada uma trabalha por no máximo seis meses (L.3.5).
  • Fundo da vala a 1,50 m do nível máximo do aquífero (L.3.2).
  • Tubo de distribuição de Ø 100 mm (Ø 50 mm em residência de até 5 pessoas), com furos de 10 mm e declividade de 1:300 a 1:500 por gravidade; brita nº 3 em volta; manta geotêxtil entre a brita e o solo; tubo de ventilação (anexo L).
  • Em solo arenoso (K abaixo de 500 min/m), camada filtrante de solo em volta, sem compactar (K.3.2).

Erros comuns

  • Uma vala só. A norma pede revezamento: no mínimo duas, cada uma com a área toda.
  • Dividir a área entre as valas. Com duas valas, cada uma tem 100 % da área, não 50 %. A metade só vale com três ou mais.
  • Pegar a linha mais próxima da Tabela N.1. Entre duas linhas a taxa é interpolada em reta. K = 1 000 min/m dá 42,3, não 37 nem 53.
  • Contar a seção inteira. Só infiltra o que está abaixo do tubo: o fundo e as laterais até a altura dele. A brita de cima e o aterro não entram.
  • Lateral trapezoidal com o avanço errado. Cada lado avança (B − b) / 2, metade da diferença das bases, e não B − b / 2.
  • Vala de 40 m numa linha só. Acima de 30 m, divida em linhas paralelas, com os eixos a 2 m.
  • Valas coladas uma na outra. Os eixos ficam a pelo menos 2 m, senão uma rouba o solo da outra.

Como o AquaFlow faz

Na janela da vala (tutorial Dimensionar as unidades), você escolhe a forma da seção, diz de onde vem a taxa (o K do ensaio, o tipo de solo ou a taxa direta), quantas valas e as medidas da seção. O app soma o que chega às valas, converte o K pela Tabela N.1 (interpolando em reta, e dizendo entre quais linhas), aplica a parcela da alternância, calcula a infiltração por metro e mostra a conta em blocos até o comprimento de cada vala, já dividido em linhas de até 30 m. Seção abaixo da Figura L.1, uma vala só, K fora da tabela ou solo arenoso: ele avisa no campo.

  1. 1Infiltração: Ensaio (o K em min/m), Tipo de solo ou Direta; ao lado, quantas Valas
  2. 2Retangular ou Trapezoidal
  3. 3Seção (m): Largura L e Altura h abaixo do tubo
  4. 4Por metro: a infiltração de cada metro de vala
  5. 5Comprimento de cada vala, em linhas de até 30 m

Referências

  • ABNT NBR 17076:2024 — Sistemas de tratamento de esgoto de menor porte. Anexo L (vala de infiltração), anexo N (ensaio de percolação e Tabela N.1), K.3 e Tabela 1.
  • ABNT NBR 13969:1997 (substituída) — Tanques sépticos: unidades de tratamento complementar e disposição final dos efluentes líquidos. A Tabela A.1, a mesma Tabela N.1.
  • Jordão, E. P.; Pessôa, C. A. — Tratamento de esgotos domésticos (2005), Quadro 8: coeficiente de infiltração por tipo de solo.